As irmãs Grimes: quem foi o responsável pela sua morte?

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O Natal de 1956 havia sido há poucos  dias, quando a mais terrível notícia bateu à porta da família Grimes, em Chicago nos EUA.

No dia 28 de dezembro, duas das irmãs Grimes, Barbara Jeanne, com 15 anos e Patricia Kathleen, com 13 anos, pediram aos pais para irem ver o filme de Elvis Presley “Love Me Tender”. Como quaisquer outras adolescentes, as irmãs eram fãs entusiásticas do cantor e estavam ansiosas por ver a sua primeira prestação cinematográfica.

O filme estava em cena no Brighton ParkTheater na Archer Avenue, que ficava a pouco menos de 3 km da sua casa, no número 3634 South Damen Avenue.

Imagem do Brighton Park Theatre tirada em 1919. Foi encerrado em 1991 e em setembro de 2003 foi demolido. Fonte: cinematreasures.org

Aquela noite de fim de dezembro estava ventosa e fria. As irmãs sairam de casa por volta das 19h30m, levando consigo um total de 2,50 dólares americanos. A sua intenção era assistir a uma sessão dupla de cinema, o que certamente aconteceu. A amiga de Patricia, Dorothy Weinerte, que apenas assistiu à primeira sessão, viu-as na fila para comprar pipocas, por altura do intervalo (21h30m).

As irmãs planeavam regressar imediatamente a casa;  a sua mãe, Loretta Grimes, esperava-as por volta das 23h45m. Quando à meia-noite ainda não tinham chegado, Loretta começou a ficar preocupada e mandou a irmã mais velha, Theresa, de 17 anos, e o irmão mais novo, Joey, de 14, ao seu encontro, esperando-as na paragem de autocarro. Esperaram até às 2h00 da manhã e nada das irmãs.
Os receios da família tornaram-se realidade e, por volta das 2h15 da madrugada, a mãe participou o desaparecimento das meninas à polícia.

Convém referir que, nesta época não existia ainda um Alerta AMBER ou uma Emergência de Rapto de Criança, contudo, o desaparecimento das irmãs Grimes deu origem a  um dos maiores casos de pessoas desaparecidas na história de Chicago, tendo envolvido um enorme contingente policial na sua investigação. O medo instalou-se por entre a população, as crianças de Chicago já não estavam em segurança.
Entretanto, a polícia começou desde logo, a receber informações de pessoas que viram as meninas. Infelizmente, nenhum desses testemunhos chegou a subsistir como prova.

Ao inteirarem-se dos factos iniciais, a polícia pensou poder tratar-se de um caso de fuga. Talvez as irmãs tivessem ido para Nashville, no Tennessee, para poderem assistir ao concerto do Elvis Presley que se avizinhava. Esta convicção inicial da polícia deu até origem a um apelo do artista para que as meninas voltassem para casa e tranquilizassem a mãe.

Loretta Grimes, mãe das meninas, a ler um panfleto da polícia de Chicago sobre o seu desaparecimento. Fonte: http://www.chicagonow.com

Mas tal não sucedeu, e as irmãs não regressaram a casa.
Entretanto, desde o seu desaparecimento, a polícia recebeu inúmeros contactos de cidadãos preocupados com informações sobre as meninas. Diversas pessoas viram-nas entrar no autocarro na Archer Avenue depois do fim da sessão de cinema. Mas as meninas supostamente sairam na Western Avenue, por volta das 23h05m, a metade do caminho para casa. Porque terão feito isso? Com que objetivo? Iriam encontrar-se com alguém? Queriam passear mais um pouco?

Por volta das 23h30m, dois adolescentes acreditam que as viram a dois quarteirões de sua casa, na 35th Street, perto das Seely e Damen Avenues, felizes e divertidas. Já um segurança garante que, na manhã de 29 de dezembro, as irmãs lhe pediram orientações de caminho, perto da Lawrence e Central Park Avenues. O que estariam as meninas a fazer ali no dia seguinte? Desapareceram então por vontade própria? Onde quereriam ir?

Uma outra testemunha, uma colega de escola da Patricia que se encontrava a jantar no restaurante Angelo’s no número 3551 da South Archer Avenue, diz que a viu com duas outras raparigas. As irmãs já não estariam juntas? Quem eram estas raparigas? O que faria a Patricia ali? Para onde iria? Entretanto, um maquinista dos caminhos de ferro comunicou que viu as irmãs num comboio junto ao Centro de Instrução Naval de Great Lakes, nos subúrbios de Glenview. O que estariam elas a fazer a 30 km de casa? Num comboio para onde? Estariam acompanhadas por alguém? Teriam sido raptadas?

No dia 30 de dezembro, de madrugada, por volta das 5h40m, o dono do restaurante D&L, no número 1340 da West Madison, alega ter visto as meninas. Diz também que a Patricia estaria tão bêbada ou doente, que estaria com dificuldade em se movimentar. Esta testemunha apresenta um fator novo, porque alega que Patricia estaria com um homem, que identificou como Bennie Bedwell, e que mais tarde seria investigado como suspeito.
O local onde esta testemunha viu Patricia ficava a quase 9 km do Brighton Theater.

A cidade de Chicago continuou em alerta durante o mês janeiro e a polícia continuou a receber contactos de cidadãos que informavam ter visto as meninas:

  • no dia de Ano Novo as meninas foram vistas num autocarro na Damen Avenue;
  • um funcionário de um hotel, o Unity, na West 61st street, alega que lhes recusou um quarto por causa da sua idade;
  • no dia 3 de janeiro, três funcionários de uma loja Kresge afirmam que as irmãs estiveram lá a ouvir música de Elvis Presley;
  • entretanto, a teoria de que as irmãs haviam fugido por vontade própria para Nashville é alimentada pelo testemunho de uma mulher que diz que as encontrou numa paragem de autocarro e as levou, a seu pedido, a um centro de emprego; um funcionário desse centro de emprego alega que as meninas estiveram lá, reconhecendo-as através de fotografia e até se lembra de elas usarem o sobrenome Grimes;
  • em 14 de janeiro os pais de Sandra Tollstan, uma colega de turma de Patricia, dizem ter recebido duas estranhas chamadas telefónicas por volta da meia-noite; no primeiro telefonema ninguém falou, mas no segundo, um quarto de hora depois, a mãe de Sandra, Ann, diz ter ouvido uma voz feminina, atemorizada e alterada, perguntando “És tu Sandra? A Sandra está ai?”; enquanto Ann chamou a filha para atender o telefonema, a chamada caiu e mais ninguém voltou a ligar; Ann garante que se tratava de Patricia.

Durante 25 dias, o desaparecimento das irmãs Grimes manteve-se um mistério, gerando na população da cidade de Chicago uma insegurança compreensível e na família das meninas o terror do fim da esperança. Foi no fatídico dia 22 de janeiro, que a família recebeu a notícia que mais temia: os cadáveres das meninas haviam sido encontrados.

Theresa Grimes, a irmã mais velha e Loretta Grimes, a mãe

Theresa, a irmã mais velha, a consolar a mãe depois de receberem a notícia da morte das irmãs. Fonte: http://www.chicagonow.com

Se o desaparecimento das meninas originou uma onda de medo e um certo pânico na cidade, o facto de os seus corpos terem sido agora encontrados, sem roupas e completamente congelados na berma de Devil’s Creek, a sudoeste do Condado de Cook, fez morrer toda a inocência e esperança daquela população. O verdadeiro pesadelo estava agora a começar.

Vista da berma de uma estrada onde se vislumbram os corpos das irmãs Grimes e uma multidão de gente à direita a querer ver os corpos

O local, na German Church Road, onde as irmãs foram encontradas. Fonte: www.en.wikipedia.org

Os cadáveres nus e congelados das duas meninas foram encontrados por Leonard Prescott, um trabalhador da construção civil. Prescott alega tê-los avistado enquanto conduzia na German Church Road em Willow Springs (Illinois). Não tendo a certeza do que viu, não parou, e voltou mais tarde com a esposa, que ficou em choque com o que viu quando se aproximaram e desmaiou.

Os corpos desnudados das meninas estavam posicionados de uma forma estranha, desajeitada, talvez porque terão sido despejados por carro em movimento. A irmã mais velha, Barbara, estava voltada com o rosto para baixo e Patricia, a irmã mais nova, encontrava-se de costas, em cima da irmã, com a cara voltada para cima. Os seus corpos, principalmente as caras, apresentavam muitos danos de origem animal.

Polícias a colocarem os corpos congelados das irmãs Grimes, embrulhados em lençóis brancos, nas macas da morgue

Os corpos congelados das irmãs Grimes a chegar à morgue. Fonte: www.chicagonow.com

Após o descongelamento dos corpos, a autópsia concluiu que os estômagos das meninas continham a proporção aproximada de comida das suas últimas refeições, que eram conhecidas (o jantar em casa dos pais e as pipocas no cinema). Este facto permitiu aos patologistas inferirem que as irmãs morreram nas horas seguintes ao seu desaparecimento, isto é, logo na noite de 28, depois das 21h30m ou na madrugada de dia 29 de dezembro.
Esta dedução não foi, no entanto, unânime, já que o investigador chefe  do gabinete forense do Condado de Cook não concordou com a hora da morte apontada pelos colegas. Quanto a este técnico, a fina camada de gelo encontrada nos corpos, indiciava que as meninas teriam estado vivas, pelo menos, até dia 7 de janeiro, uma vez que só a partir dessa data é que se verificou a queda de neve suficiente para reagir com o calor dos seus corpos e criar aquela camada de gelo.

Documento preenchido e assinado pelo médico legista sobre a autópsia feita a Patricia Grimes

Certidão de óbito de Patricia Grimes. Fonte: https://en.wikipedia.org

Os corpos das raparigas não apresentavam qualquer ferimento letal, vestígios de álcool, drogas ou venenos. Para além das várias contusões encontradas e dos vestígios de mordidas de animais em ambos os cadáveres, o corpo da Barbara também apresentava três feridas por perfuração no peito, possivelmente provocadas por um picador de gelo.
As autoridades revelaram também, mais tarde, que a irmã mais velha terá tido relações sexuais por volta da hora da sua morte, embora o corpo não apresentasse evidências de violação.
A causa da morte diagnosticada foi choque secundário resultante da exposição a baixas temperaturas.

Os corpos foram então entregues à família e as cerimónias fúnebres foram celebradas  na paróquia de St. Maurice.

O pai, Joe Grimes, a mãe, Loretta, e a filha, Theresa, à saída do velório. Fonte: www.chicagonow.com

Os funerais foram realizados no dia 28 de janeiro no cemitério católico Holy Sepulchre. Inconsoláveis, não só pela perda, mas também pela falta de culpados na morte das adolescentes, os familiares permaneceram de cabeça baixa, em sofrimento, física e emocionalmente esgotados na sua própria tristeza e dor.

Funeral da irmãs Grimes com toda a família reunida junto aos dois caixões. Fonte: Chicago Tribune

Nos meses que se seguiram a polícia seguiu todas as pistas que encontrou e foram interrogadas diversas pessoas tidas como de interesse para a investigação.
De entre os vários suspeitos interrogados, Edward Lee Bedwell destacou-se por ter confessado os crimes, embora mais tarde se tenha retratado e não houvesse, de facto, qualquer evidência que provasse a sua culpa.

A polícia não conseguiu garantir nenhuma acusação com as provas que tinha, não tendo até esta data avançado com qualquer acusação.

Recentemente, um agente reformado da  polícia de Chicago, Ray Johnson, debruçou-se novamente sobre o caso das irmãs Grimes, reavivando o interesse público sobre o mesmo através de vários artigos de investigação publicados no ChicagoNow.com. Johnson afirma que há pouco tempo, terá sido contactado por uma mulher que alega ter estado com as irmãs na noite do seu desaparecimento. A mulher diz que se atirou de um carro em movimento, abandonando Barbara e Patricia, e que ficou com tanto medo que não conseguiu contar aos pais e à polícia.Esta nova testemunha veio dar-lhe um novo alento, sendo sua intenção deslindar este intrigante caso, mesmo passados todos estes anos.

Johnson também criou um grupo na rede social Facebook, Help Solve Chicago’s Grimes Sisters’ Murder, onde se partilham histórias, pistas e teorias sobre o caso.

Se estiver na posse de alguma informação sobre este caso, por favor contacte Cook County Sheriff’s Police Cold Case Unit at 00-1-708-865-4549 ou preencha o formulário na sua página de internet.

Loretta Grimes, a mãe das meninas, pediu aos investigadores que nunca deixassem de procurar pelo seu homicida, para o castigar pelos seus hediondos crimes. Loretta faleceu em 1989, com 83 anos. O assassino das suas filhas ainda não foi identificado.

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